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segunda-feira, 5 de outubro de 2015

BIOGRAFIA, AUTOBIOGRAFIA E MEMÓRIAS LITERÁRIAS

TEXTO 1

Autobiografia

Nasci numa família de camponeses sem terra, em Azinhaga, uma pequena povoação situada na província do Ribatejo, na margem direita do rio Almonda, a uns cem quilómetros a nordeste de Lisboa. Meus pais chamavam-se José de Sousa e Maria da Piedade. José de Sousa teria sido também o meu nome se o funcionário do Registo Civil, por sua própria iniciativa, não lhe tivesse acrescentado a alcunha por que a família de meu pai era conhecida na aldeia: Saramago. (Cabe esclarecer que Saramago é uma planta herbácea espontânea, cujas folhas, naqueles tempos, em épocas de carência, serviam como alimento na cozinha dos pobres). Só aos sete anos, quando tive de apresentar na escola primária um documento de identificação, é que se veio a saber que o meu nome completo era José de Sousa Saramago... Não foi este, porém, o único problema de identidade com que fui fadado no berço. Embora tivesse vindo ao mundo no dia 16 de Novembro de 1922, os meus documentos oficiais referem que nasci dois dias depois, a 18: foi graças a esta pequena fraude que a família escapou ao pagamento da multa por falta de declaração do nascimento no prazo legal.
Talvez por ter participado na Grande Guerra, em França, como soldado de artilharia, e conhecido outros ambientes, diferentes do viver da aldeia, meu pai decidiu, em 1924, deixar o trabalho do campo e trasladar-se com a família para Lisboa, onde começou a exercer a profissão de polícia de segurança pública, para a qual não se exigiam mais "habilitações literárias" (expressão comum então...) que ler, escrever e contar. Poucos meses depois de nos termos instalado na capital, morreria meu irmão Francisco, que era dois anos mais velho do que eu. Embora as condições em que vivíamos tivessem melhorado um pouco com a mudança, nunca viríamos a conhecer verdadeiro desafogo económico. Já eu tinha 13 ou 14 anos quando passámos, enfim, a viver numa casa (pequeníssima) só para nós: até aí sempre tínhamos habitado em partes de casa, com outras famílias. Durante todo este tempo, e até à maioridade, foram muitos, e frequentemente prolongados, os períodos em que vivi na aldeia com os meus avós maternos, Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha.
Fui bom aluno na escola primária: na segunda classe já escrevia sem erros de ortografia, e a terceira e quarta classes foram feitas em um só ano. Transitei depois para o liceu, onde permaneci dois anos, com notas excelentes no primeiro, bastante menos boas no segundo, mas estimado por colegas e professores, ao ponto de ser eleito (tinha então 12 anos...) tesoureiro da associação académica... Entretanto, meus pais haviam chegado à conclusão de que, por falta de meios, não poderiam continuar a manter-me no liceu. A única alternativa que se apresentava seria entrar para uma escola de ensino profissional, e assim se fez: durante cinco anos aprendi o ofício de serralheiro mecânico. O mais surpreendente era que o plano de estudos da escola, naquele tempo, embora obviamente orientado para formações profissionais técnicas, incluía, além do Francês, uma disciplina de Literatura. Como não tinha livros em casa (livros meus, comprados por mim, ainda que com dinheiro emprestado por um amigo, só os pude ter aos 19 anos), foram os livros escolares de Português, pelo seu carácter "antológico", que me abriram as portas para a fruição literária: ainda hoje posso recitar poesias aprendidas naquela época distante. Terminado o curso, trabalhei durante cerca de dois anos como serralheiro mecânico numa oficina de reparação de automóveis. Também por essas alturas tinha começado a frequentar, nos períodos noturnos de funcionamento, uma biblioteca pública de Lisboa. E foi aí, sem ajudas nem conselhos, apenas guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender, que o meu gosto pela leitura se desenvolveu e apurou.
Quando casei, em 1944, já tinha mudado de atividade, passara a trabalhar num organismo de Segurança Social como empregado administrativo. Minha mulher, Ilda Reis, então datilógrafa nos Caminhos de Ferro, viria a ser, muitos anos mais tarde, um dos mais importantes gravadores portugueses. Faleceria em 1998. Em 1947, ano do nascimento da minha única filha, Violante, publiquei o primeiro livro, um romance que intitulei A Viúva, mas que por conveniências editoriais viria a sair com o nome de Terra do Pecado. Escrevi ainda outro romance, Claraboia, que permanece inédito até hoje, e principiei um outro, que não passou das primeiras páginas: chamar-se-ia O Mel e o Fel ou talvez Luís, filho de Tadeu... A questão ficou resolvida quando abandonei o projeto: começava a tornar-se claro para mim que não tinha para dizer algo que valesse a pena. Durante 19 anos, até 1966, quando publicaria Os Poemas Possíveis , estive ausente do mundo literário português, onde devem ter sido pouquíssimas as pessoas que deram pela minha falta.
Por motivos políticos fiquei desempregado em 1949, mas, graças à boa vontade de um meu antigo professor do tempo da escola técnica, pude encontrar ocupação na empresa metalurgia de que ele era administrador. No final dos anos 50 passei a trabalhar numa editora, Estúdios Cor, como responsável pela produção, regressando assim, mas não como autor, ao mundo das letras que tinha deixado anos antes. Essa nova atividade permitiu-me conhecer e criar relações de amizade com alguns dos mais importantes escritores portugueses de então. Para melhorar o orçamento familiar, mas também por gosto, comecei, a partir de 1955, a dedicar uma parte do tempo livre a trabalhos de tradução, atividade que se prolongaria até 1981: Colette, Pär Lagerkvist, Jean Cassou, Maupassant, André Bonnard, Tolstoi, Baudelaire, Étienne Balibar, Nikos Poulantzas, Henri Focillon, Jacques Roumain, Hegel, Raymond Bayer foram alguns dos autores que traduzi. Outra ocupação paralela, entre Maio de 1967 e Novembro de 1968, foi a de crítico literário. Entretanto, em 1966, publicara Os Poemas Possíveis, uma coletânea poética que marcou o meu regresso à literatura. A esse livro seguiu-se, em 1970, outra coletânea de poemas, Provavelmente Alegria, e logo, em 1971 e 1973 respectivamente, sob os títulos Deste Mundo e do Outro e A Bagagem do Viajante , duas recolhas de crónicas publicadas na imprensa, que a crítica tem considerado essenciais à completa compreensão do meu trabalho posterior. Tendo-me divorciado em 1970, iniciei uma relação de convivência, que duraria até 1986, com a escritora portuguesa Isabel da Nóbrega.
Deixei a editora no final de 1971, trabalhei durante os dois anos seguintes no vespertino Diário de Lisboa como coordenador de um suplemento cultural e como editorialista. Publicados em 1974 sob o título As Opiniões que o DL teve, esses textos representam uma "leitura" bastante precisa dos últimos tempos da ditadura que viria a ser derrubada em Abril daquele ano. Em Abril de 1975 passei a exercer as funções de diretor-adjunto do matutino Diário de Notícias, cargo que desempenhei até Novembro desse ano e de que fui demitido na sequência das mudanças ocasionadas pelo golpe político-militar de 25 de daquele mês, que travou o processo revolucionário. Dois livros assinalam esta época: O Ano de 1993, um poema longo publicado em 1975, que alguns críticos consideram já anunciador das obras de ficção que dois anos depois se iniciariam com o romance Manual de Pintura e Caligrafia, e, sob o título Os Apontamentos, os artigos de teor político que publiquei no jornal de que havia sido diretor.
Sem emprego uma vez mais e, ponderadas as circunstâncias da situação política que então se vivia, sem a menor possibilidade de o encontrar, tomei a decisão de me dedicar inteiramente à literatura: já era hora de saber o que poderia realmente valer como escritor. No princípio de 1976 instalei-me por algumas semanas em Lavre, uma povoação rural da província do Alentejo. Foi esse período de estudo, observação e registo de informações que veio a dar origem, em 1980, ao romance Levantado do Chão, em que nasce o modo de narrar que caracteriza a minha ficção novelesca. Entretanto, em 1978, havia publicado uma coletânea de contos, Objeto Quase, em 1979 a peça de teatro A Noite, a que se seguiu, poucos meses antes da publicação de Levantado do Chão, nova obra teatral, Que Farei com este Livro?. Com exceção de uma outra peça de teatro, intitulada A Segunda Vida de Francisco de Assis e publicada em 1987, a década de 80 foi inteiramente dedicada ao romance: Memorial do Convento, 1982, O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1984, A Jangada de Pedra, 1986, História do Cerco de Lisboa , 1989. Em 1986 conheci a jornalista espanhola Pilar del Río. Casámo-nos em 1988.
Em consequência da censura exercida pelo Governo português sobre o romance O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), vetando a sua apresentação ao Prémio Literário Europeu sob pretexto de que o livro era ofensivo para os católicos, transferimos, minha mulher e eu, em Fevereiro de 1993, a nossa residência para a ilha de Lanzarote, no arquipélago de Canárias. No princípio desse ano publiquei a peça In Nomine Dei, ainda escrita em Lisboa, de que seria extraído o libreto da ópera Divara, com música do compositor italiano Azio Corghi, estreada em Münster (Alemanha), em 1993. Não foi esta a minha primeira colaboração com Corghi: também é dele a música da ópera Blimunda, sobre o romance Memorial do Convento, estreada em Milão (Itália), em 1990. Em 1993 iniciei a escrita de um diário, Cadernos de Lanzarote, de que estão publicados cinco volumes. Em 1995 publiquei o romance Ensaio sobre a Cegueira e em 1997 Todos os Nomes e O Conto da Ilha Desconhecida. Em 1995 foi-me atribuído o Prémio Camões, e em 1998 o Prémio Nobel de Literatura.
Em consequência da atribuição do Prémio Nobel a minha atividade pública viu-se incrementada. Viajei pelos cinco continentes, oferecendo conferências, recebendo graus académicos, participando em reuniões e congressos, tanto de carácter literário como social e político, mas, sobretudo, participei em ações reivindicativas da dignificação dos seres humanos e do cumprimento da Declaração dos Direitos Humanos pela consecução de uma sociedade mais justa, onde a pessoa seja prioridade absoluta, e não o comércio ou as lutas por um poder hegemónico, sempre destrutivas.
Creio ter trabalhado bastante durante estes últimos anos. Desde 1998, publiquei Folhas Políticas (1976-1998) (1999), A Caverna (2000), A Maior Flor do Mundo (2001), O Homem Duplicado (2002), Ensaio sobre a Lucidez (2004), Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido (2005), As Intermitências da Morte (2005) e As Pequenas Memórias (2006). Agora, neste Outono de 2008, aparecerá um novo livro: A Viagem do Elefante, um conto, uma narrativa, uma fábula.
No ano de 2007 decidiu criar-se em Lisboa uma Fundação com o meu nome, a qual assume, entre os seus objetivos principais, a defesa e a divulgação da literatura contemporânea, a defesa e a exigência de cumprimento da Carta dos Direitos Humanos, além da atenção que devemos, como cidadãos responsáveis, ao cuidado do meio ambiente. Em Julho de 2008 foi assinado um protocolo de cedência da Casa dos Bicos, em Lisboa, para sede da Fundação José Saramago, onde esta continuará a intensificar e consolidar os objetivos a que se propôs na sua Declaração de Princípios, abrindo portas a projetos vivos de agitação cultural e propostas transformadoras da sociedade.
Nota - Depois de A Viagem do Elefante, José Saramago escreveu Caim e O Caderno I e O Caderno II, livros que não chegou a acrescentar à sua Autobiografia.
Disponível em: <
http://josesaramago.blogs.sapo.pt/95061.html>. Acesso em: 23 jul. 2014.


  TEXTO 2

Clarice Lispector - Editora Rocco
Pedro Karp Vasquez

       Ao mesmo tempo que ousava desvelar as profundezas de sua alma em seus escritos, Clarice Lispector costumava evitar declarações excessivamente íntimas nas entrevistas que concedia, tendo afirmado mais de uma vez que jamais escreveria uma autobiografia. Contudo, nas crônicas que publicou no Jornal do Brasil entre 1967 e 1973, deixou escapar de tempos em tempos confissões que, devidamente pinçadas, permitem compor um autorretrato bastante acurado, ainda que parcial. Isto porque Clarice por inteiro só os verdadeiramente íntimos conheceram e, ainda assim, com detalhes ciosamente protegidos por zonas de sombra. A verdade é que a escritora, que reconhecia com espanto ser um mistério para si mesma, continuará sendo um mistério para seus admiradores, ainda que os textos confessionais aqui coligidos possibilitem reveladores vislumbres de sua densa personalidade.

A descoberta do amor
       “[...] Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em apreender a atmosfera íntima de uma pessoa. Por outro lado, longe de precoce, estava em incrível atraso em relação a outras coisas importantes. Continuo, aliás, atrasada em muitos terrenos. Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.
Até mais que treze anos, por exemplo, eu estava em atraso quanto ao que os americanos chamam de fatos da vida. Essa expressão se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos. [...] Depois, com o decorrer de mais tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza. Já então eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvageria e muita timidez.
       Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amor. [...] Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é por pudor apenas feminino.
Pois juro que a vida é bonita.”

Temperamento impulsivo

       “Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma ideia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
       Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”

Lúcida em excesso

       “Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? Assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.”.

Ideal de vida

       “Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser.
       O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de ‘a protetora dos animais’. Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la.
       [...] No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.
É pouco, é muito pouco.”

Escritora, sim; intelectual, não

       “Outra coisa que não parece ser entendida pelos outros é quando me chamam de intelectual e eu digo que não sou. De novo, não se trata de modéstia e sim de uma realidade que nem de longe me fere. Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto. Ser intelectual é também ter cultura, e eu sou tão má leitora que agora já sem pudor, digo que não tenho mesmo cultura. Nem sequer li as obras importantes da humanidade.
[...] Literata também não sou porque não tornei o fato de escrever livros ‘uma profissão’, nem uma ‘carreira’. Escrevi-os só quando espontaneamente me vieram, e só quando eu realmente quis. Sou uma amadora?
       O que sou então? Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.”

A síntese perfeita

       “Sou tão misteriosa que não me entendo.”

A certeza do divino

       “Através de meus graves erros — que um dia eu talvez os possa mencionar sem me vangloriar deles — é que cheguei a poder amar. Até esta glorificação: eu amo o Nada. A consciência de minha permanente queda me leva ao amor do Nada. E desta queda é que começo a fazer minha vida. Com pedras ruins levanto o horror, e com horror eu amo. Não sei o que fazer de mim, já nascida, senão isto: Tu, Deus, que eu amo como quem cai no nada.”

Viver e escrever

       “Quando comecei a escrever, que desejava eu atingir? Queria escrever alguma coisa que fosse tranquila e sem modas, alguma coisa como a lembrança de um alto monumento que parece mais alto porque é lembrança. Mas queria, de passagem, ter realmente tocado no monumento. Sinceramente não sei o que simbolizava para mim a palavra monumento. E terminei escrevendo coisas inteiramente diferentes.”
       “Não sei mais escrever, perdi o jeito. Mas já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não das menos dolorosas, é ter visto bocas se abrirem para dizer ou talvez apenas balbuciar, e simplesmente não conseguirem. Então eu quereria às vezes dizer o que elas não puderam falar. Não sei mais escrever, porém o fato literário tornou-se aos poucos tão desimportante para mim que não saber escrever talvez seja exatamente o que me salvará da literatura.
       O que é que se tornou importante para mim? No entanto, o que quer que seja, é através da literatura que poderá talvez se manifestar.”
       “Até hoje eu por assim dizer não sabia que se pode não escrever. Gradualmente, gradualmente até que de repente a descoberta tímida: quem sabe, também eu já poderia não escrever. Como é infinitamente mais ambicioso. É quase inalcançável”.

A importância da maternidade

       “Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca [...].”

Viver plenamente

       “Eu disse a uma amiga:
       — A vida sempre superexigiu de mim.
       Ela disse:
       — Mas lembre-se de que você também superexige da vida.
       Sim.”

Um vislumbre do fim

       “Uma vez eu irei. Uma vez irei sozinha, sem minha alma dessa vez. O espírito, eu o terei entregue à família e aos amigos com recomendações. Não será difícil cuidar dele, exige pouco, às vezes se alimenta com jornais mesmo. Não será difícil levá-lo ao cinema, quando se vai. Minha alma eu a deixarei, qualquer animal a abrigará: serão férias em outra paisagem, olhando através de qualquer janela dita da alma, qualquer janela de olhos de gato ou de cão. De tigre, eu preferiria. Meu corpo, esse serei obrigada a levar. Mas dir-lhe-ei antes: vem comigo, como única valise, segue-me como um cão. E irei à frente, sozinha, finalmente cega para os erros do mundo, até que talvez encontre no ar algum bólide que me rebente. Não é a violência que eu procuro, mas uma força ainda não classificada mas que nem por isso deixará de existir no mínimo silêncio que se locomove. Nesse instante há muito que o sangue já terá desaparecido. Não sei como explicar que, sem alma, sem espírito, e um corpo morto — serei ainda eu, horrivelmente esperta. Mas dois e dois são quatro e isso é o contrário de uma solução, é beco sem saída, puro problema enrodilhado em si. Para voltar de ‘dois e dois são quatro’ é preciso voltar, fingir saudade, encontrar o espírito entregue aos amigos, e dizer: como você engordou! Satisfeita até o gargalo pelos seres que mais amo. Estou morrendo meu espírito, sinto isso, sinto...”

Textos extraídos do livro Aprendendo a viver, Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004.
Disponível em: <http://www.claricelispector.com.br/autobiografia.aspx>. Acesso em: 23 jul. 2014.


TEXTO 3

...das saudades que não tenho
Bartolomeu Campos Queirós

Nasci com 57 anos. Meu pai me legou seus 34, vividos com duvidosos amores, desejos escondidos. Minha mãe me destinou seus 23, marcados com traições e perdas. Assim, somados, o que herdei foi a capacidade de associar amor ao sofrimento.
Morava numa cidade pequena do interior de Minas, enfeitada de rezas, procissões, novenas e pecados. Cidade com sabor de laranja-serra-d’água, onde minha solidão já pressentida era tomada pelo vigário, professora, padrinho, beata, como exemplo de perfeição.
(...) Meu pai não passeou comigo montado em seus ombros, nem minha mãe cantou cantigas de ninar para me trazer o sono. Mesmo nascendo com 57 anos estava aos 60 obrigado ainda a ser criança. E ser menino era honrar pai com seus amores ocultos. Gostar da mãe e seus suspiros de desventuras.
(...) Tive uma educação primorosa. Minha primeira cartilha foi o olhar do meu pai, que me autorizava a comer mais um doce nas festas de aniversário. Comer com a boca fechada, é claro, pra ficar mais bonito e meu pai receber elogios pelo filho contido que ele tinha. E cada dia era visto como a mais exemplar das crianças, naquela cidade onde a liberdade nunca mais tinha aberto as asas sobre nós.
Mas a originalidade de minha mãe ninguém poderá desconhecer. Ela era capaz de dizer coisas que nenhuma mãe do mundo dizia, como por exemplo: - Você, quando crescer vai ter um filho igual a você. Deus há de me atender, para você passar pelo que eu estou passando. – Mãe é uma só. (...)

(Bartolomeu Campos Queiroz, em Abramovich, Fanny (org.) – “O mito da infância feliz”. Summus, São Paulo, 1983).



TEXTO 4

Machado de Assis
Escritor brasileiro

Machado de Assis (1839-1908) foi escritor brasileiro. "Helena", "A Mão e a Luva", "Iaiá Garcia" e "Ressurreição", são romances escritos na fase romântica do escritor. Um dos nomes mais importantes da nossa literatura. Primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras. Foi um autor completo. Escreveu romances, contos, poesias, peças de teatro, inúmeras críticas, crônicas e correspondências.
Machado de Assis (1839-1908) nasceu no dia 21 de junho, numa chácara no morro do Livramento no Rio de Janeiro. Filho de José Francisco Machado de Assis, um mulato, pintor de paredes. Sua mãe Leopoldina Machado de Assis era lavadeira, de origem portuguesa da Ilha dos Açores. Perdeu a mãe ainda pequeno e o pai casa-se pela segunda vez. Para ajudar nas despesas da casa trabalhou vendendo doces. Frequentou por pouco tempo uma escola pública.
Logo cedo mostrou seus pendores intelectuais, aprendeu francês com uma amiga. Em 1851 morre seu pai. Em 1855 frequentava a tipografia e livraria de Francisco de Paula Brito, onde se publicava a revista Marmota Fluminense, em cujo número de 21 de janeiro sai seu poema "Ela". Em 1856 entra na Tipografia Nacional, como aprendiz de tipógrafo, onde conhece o escritor Manuel Antônio de Almeida, de quem se torna amigo. Aí permaneceu até 1858.
Machado de Assis retorna, em 1858 para a livraria de Francisco de Paula Brito, onde se torna revisor. Sem abandonar a atividade literária, passa a frequentar o mundo boêmio dos intelectuais do Rio de Janeiro. Logo passa a colaborar para vários jornais e revista, entre eles Revista Ilustrada, Gazeta de Notícias, e o Jornal do Comércio. Em 1864 publica seu primeiro livro de poesias, "Crisálidas".
Em 1867 inicia sua carreira de funcionário público. Por indicação do jornalista e político Quintino Bocaiuva, torna-se redator do Diário Oficial, onde logo foi promovido a assistente de diretor. Em 1869 casa-se com Carolina Augusta Xavier de Novais, que o estimulou na carreira literária. Em 1872 publica seu primeiro romance "Ressurreição".
Costuma-se dividir a obra de Machado de Assis em duas fases distintas. A primeira fase apresenta o autor ainda preso a alguns princípios da escola romântica. A segunda fase apresenta o autor completamente definido dentro das ideias realistas. Em 1881 publica o romance "Memórias Póstumas de Brás Cubas", que marca a fase realista de sua obra, onde revela seu talento na análise do comportamento humano, descobrindo, por trás dos atos aparentemente bons e honestos, a vaidade, o egoísmo e a hipocrisia.
Machado de Assis teve uma carreira meteórica, como funcionário público. Em 1873 foi nomeado primeiro oficial da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura. Em 1880 já era oficial de gabinete. Em 1888 foi nomeado Oficial da Ordem da Rosa, por decreto imperial, pelos serviços prestados ao Estado. Em 1892 assume a direção Geral do Ministério da Viação.
Machado de Assis foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, em 1896. Aclamado presidente, por unanimidade, logo na primeira reunião, permaneceu no cargo até 1908. Ocupou a cadeira de número 23, cujo patrono anterior era José de Alencar. Em sua homenagem, a academia é também chamada de "Casa de Machado de Assis".
Em outubro de 1904 morreu sua companheira por 35 anos, Carolina Augusta Xavier Novais, que além de revisora de suas obras era também sua enfermeira pois Machado de Assis tinha sua saúde abalada pela epilepsia. Após sua morte o romancista raramente saía de casa. Em sua homenagem dedicou o poema "A Carolina".
Joaquim Maria Machado de Assis morreu no Rio de Janeiro, no dia 29 de setembro de 1908. Foi enterrado no cemitério de São João Batista, na mesma cidade onde nasceu e viveu toda sua vida. Representando a Academia Brasileira de Letras, o jurista Rui Barbosa fez um discurso em homenagem ao escritor.

Obras de Machado de Assis

Desencanto, teatro, 1861
Queda que as mulheres têm pelos Tolos, teatro, 1861
Quase Ministro, teatro, 1864
Crisálidas, poesia, 1864
Os Deuses de Casaca, teatro, 1866
Contos Fluminenses, conto, 1870
Falenas, poesia, 1870
Ressurreição, romance, 1872
História da Meia Noite, conto, 1873
A Mão e a Luva, romance, 1874
Americanas, poesia, 1875
Helena, romance, 1876
Iaiá Garcia, romance, 1878
Memórias Póstumas de Brás Cubas, romance, 1881
Tu, Só Tu, Puro Amor, teatro, 1881
Papéis Avulsos, conto, 1882
O Alienista, conto, 1882
Histórias Sem Data, conto, 1884
Páginas Recolhidas, conto, 1889
Quincas Borba, romance, 1891
Várias Histórias, conto, 1896
Dom Casmurro, romance, 1899
Poesia Completas, 1901
Esaú e Jacó, romance, 1904
Relíquias da Casa Velha, conto, 1906
Memorial de Aires, romance, 1908
Disponível em: <http://www.e-biografias.net/machado_assis/>. Acesso em: 23 jul. 2014.



 TEXTO 5

Túnel do tempo
Rubem Alves
 
Nasci no dia 15 de setembro de 1933. Sobre o meu nascimento veja a crônica "Que bom que eles se casaram". Faça as contas para saber quantos anos não tenho. Que "não tenho", sim; porque o número que você vai encontrar se refere aos anos que não tenho mais, para sempre perdidos no passado. Os que ainda tenho, não sei, ninguém sabe. Nasci no sul de Minas, em Boa Esperança que, naquele tempo, se chamava Dores da Boa Esperança. Depois tiraram o "Dores". Pena, porque dores de boa esperança são dores de parto: há dores que anunciam o futuro. Boa Esperança é conhecida mais pela serra que o Lamartine Babo, ferido por um amor impossível, transformou em canção: "Serra da Boa Esperança", que você ouviu logo que entrou na minha casa.
Meu pai era rico, quebrou, ficou pobre. Tivemos de nos mudar. Dos tempos de pobreza só tenho memórias de felicidade. Albert Camus dizia que, para ele, a pobreza (não a miserabilidade) era o ideal de vida. Pobre, foi feliz. Conheceu a infelicidade quando entrou para o Liceu e começou a fazer comparações. A comparação é o início da inveja que faz tudo apodrecer. Aconteceu o mesmo comigo. Conheci o sofrimento quando melhoramos de vida e nos mudamos para o Rio de Janeiro. Meu pai, com boas intenções, me matriculou num dos colégios mais famosos do Rio. Foi então que me descobri caipira. Meus colegas cariocas não perdoaram meu sotaque mineiro e me fizeram motivo de chacota. Grande solidão, sem amigos. Encontrei acolhimento na religião. Religião é um bom refúgio para os marginalizados. Admirei Albert Schweitzer, teólogo protestante, organista, médico, prêmio Nobel da Paz. Quis seguir o seu caminho.
Tentei ser pianista. Fracassei. Sobrava-me disciplina e vontade. Faltava-me talento. Há um salmo que diz: "Inútil te será levantar de madrugada e trabalhar o dia todo porque Deus, àqueles a quem ama, ele dá enquanto estão dormindo." Deus não me deu talento. Deu todo para o Nelson Freire, que também nasceu em Boa Esperança. Estudei teologia. Fui pastor no interior de Minas. Convivi com gente simples e pobre. Lá um pastor é uma espécie de "despachante" para resolver todos os problemas. Mas já naquele tempo minhas ideias eram diferentes. Eu achava que religião não era para garantir o céu, depois da morte, mas para tornar esse mundo melhor, enquanto estamos vivos. Claro que minhas ideias foram recebidas com desconfiança... Em 1959 me casei e vieram os filhos Sérgio (XII.59) e Marcos (VII.62). Em 1975 nasceu minha filha Raquel. Inventando estórias para ela descobri que eu podia escrever estórias para crianças. Fui estudar em New York (1963), voltei um mês depois do golpe militar. Fui denunciado pelas autoridades da Igreja Presbiteriana, à qual pertencia, como subversivo. Experimentei o medo e fiquei conhecendo melhor o espírito dos ministros de Deus... Minha família e eu tivemos de sair do Brasil. Fui estudar em Princeton, USA, onde escrevi minha tese de doutoramento, Towards a Theology of Liberation, publicada em 1969 pela editora católica Corpus Books com o título A Theology of Human Hope. Era um dos primeiros brotos daquilo que posteriormente recebeu o nome de Teologia da Libertação. Se você quiser saber um pouco sobre o que aconteceu comigo nesses anos, leia o ensaio Sobre deuses e caquis (O quarto do mistério, p 137). O tempo passou, mudou meu jeito de pensar, voltei ao Brasil em 1968, demiti-me da Igreja Presbiteriana. Com um Ph.D. debaixo do braço e sem emprego. Foi o economista Paulo Singer, que fiquei conhecendo numa venda de móveis usados em Princeton, que me abriu a porta do ensino superior, indicando-me para uma vaga para professor de filosofia na FAFI de Rio Claro, SP. Em 1974 transferi-me para a UNICAMP, onde fiquei até me aposentar.
Golpes duros na vida me fizeram descobrir a literatura e a poesia. Ciência dá saberes à cabeça e poderes para o corpo. Literatura e poesia dão pão para corpo e alegria para a alma. Ciência é fogo e panela: coisas indispensáveis na cozinha. Mas poesia é o frango com quiabo, deleite para quem gosta... Quando jovem, Albert Camus disse que sonhava com um dia em que escreveria simplesmente o que lhe desse na cabeça. Estou tentando me aperfeiçoar nessa arte, embora ainda me sinta amarrado por antigas mortalhas acadêmicas. Sinto-me como Nietzsche, que dizia haver abandonado todas as ilusões de verdade. Ele nada mais era que um palhaço e um poeta. O primeiro nos salva pelo riso. O segundo pela beleza.
Com a literatura e a poesia comecei a realizar meu sonho fracassado de ser músico: comecei a fazer música com palavras. Leituras de prazer especial: Nietzsche, T. S. Eliot, Kierkegaard, Camus, Lutero, Agostinho, Angelus Silésius, Guimarães Rosa, Saramago, Tao Te Ching, o livro de Eclesiastes, Bachelard, Octávio Paz, Borges, Barthes, Michael Ende, Fernando Pessoa, Adélia Prado, Manoel de Barros. Pintura: Bosch, Brueghel, Grünnenwald, Monet, Dali, Larsson. Música: canto gregoriano, Bach, Beethoven, Brahms, Chopin, César Franck, Keith Jarret, Milton, Chico, Tom Jobim.
Sou psicanalista, embora heterodoxo. Minha heterodoxia está no fato de que acredito que no mais profundo do inconsciente mora a beleza. Com o que concordam Sócrates, Nietzsche e Fernando Pessoa. Exerço a arte com prazer. Minhas conversas com meus pacientes são a maior fonte de inspiração que tenho para minhas crônicas.

Já tive medo de morrer. Não tenho mais. Tenho tristeza. A vida é muito boa. Mas a Morte é minha companheira. Sempre conversamos e aprendo com ela. Quem não se torna sábio ouvindo o que a Morte tem a dizer está condenado a ser tolo a vida inteira.
Disponível em: <http://www.rubemalves.com.br/site/tuneldotempo.php>. Acesso em: 23 jul. 2014.



TEXTO 6

Autobiografia - Um pouco de minha história

Meu nome é Felipe Simões Quartero, nascí em 30 de julho de 1981, na cidade de São Bernardo do Campo, estado de São Paulo.
Aos 5 anos de idade comecei a apresentar algumas dificuldades físicas relacionadas a força muscular. Um ano depois, após inúmeros exames, fui diagnosticado como sendo portador da Distrofia Muscular de Duchenne, deficiência neuromuscular progressiva, na qual as células musculares sofrem um processo degenerativo contínuo.
Apesar das limitações, que foram crescendo com o passar dos anos, continuei vivendo normalmente, sempre estudando, fazendo amigos e curtindo a vida. A deficiência nunca foi motivo para eu desistir de meus objetivos, e penso ser essa atitude a mais importante e decisiva em minha vida.
Aos 11 anos passei a me locomover "sobre rodas" (com o auxílio de cadeira de rodas), uma condição nova para mim, a qual logo me adaptei. Em 1999, aos 17 anos, iniciei o curso superior de Ciências da Computação, me formando quatro anos mais tarde. Atualmente atuo como professor de informática, palestrante e escritor.
Minha biografia não acaba aqui, continua sendo escrita, mas já me rendeu (e segue rendendo) muitas experiências e histórias para contar, agora é hora de compartilhá-las com as pessoas.


TEXTO 7

Aí eu peguei e nasci!
José Simão

Sou filho de árabe com loira e deu macaco na cabeça. E eu não tenho 56 anos. Eu tenho 18 anos. Com 38 de experiência. E eu era um menino asmático que ficava lendo Proust e ouvindo programa de terror no rádio.
Em 69 entrei pra Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Mas eu matava aula com o namorado da Wanderléa pra ir assistir o programa de rádio do Erasmo Carlos. E aí eu desisti. Senhor Juiz, Pare Agora!
E aí eu fui pra swinging London, usava calça boca de sino, cabelo comprido e assisti ao show dos Rolling Stones no Hyde Park. E alguns bicos pra BBC.
Voltei. Auge do tropicalismo. Frequentava as Dunas da Gal em Ipanema. Passei dois anos batendo palma pro pôr-do-sol e assistindo o show da Gal toda noite. E depois diz que hippie não faz nada. O Cazuza tentava se enturmar mas como ele era muito menino a gente não dava a menor bola. Foram os Anos Baianos. E todo Carnaval a gente ia pra Bahia atrás do Caetano. Ia de carona e voltava de caganera! Rarará!
Aí em 87 entrei pra Folha e escrevo colunas desde então. Que eu chamo de telejornal humorístico. Onde abordo os três temas que mais deliciam os brasileiros: sexo, política e futebol. Trio elétrico do brasileiro: real, bunda e bola!
Time do coração: eu queria ser corinthiano mas são paulino!
Opção sexual: no sofá com o cachorro
Pior compra que já fez: uma caixa de acarajé em pó
Religião: ateu místico. Aquele que faz o sinal da cruz, toma banho de sal grosso e tem três São Jorges ao lado do computador! E ecumênico por ecumênico eu prefiro o ecumenicuzinho da Madonna!
Livros de cabeceira: Paul Bowles, Gregório de Mattos e "Carandiru" do Drauzio Varella.
Ojeriza ideológica: tucanos. TÔ FORA!
Acadêmicos: acadêmicos por acadêmicos eu prefiro Os Acadêmicos do Salgueiro!
Filmes Inesquecíveis: todos de Woody Allen e Hitchcok. E tirando "Rocco e seus irmãos" só gosto de cinema americano: não assisto filme estrangeiro. E nem de país que não tenha água potável!
Definição de filme cabeça: um monte de gente pelada discutindo
Uma boa causa: liberdade de expressão. Viva Larry Flint!
Filosofia de vida: nóis sofre mas nóis goza! E gostoso!

Acorda Brasil!
Que eu vou dormir!
Disponível em: <http://www2.uol.com.br/josesimao/biografia.htm>. Acesso em: 23 jul. 2014.



TEXTO 8

Leonardo da Vinci
Pintor italiano

Leonardo da Vinci (1452-1519) foi pintor italiano. "Mona Lisa" foi a obra que o notabilizou. Foi também escultor, arquiteto, matemático, urbanista, físico, astrônomo, engenheiro, químico, naturalista, geólogo, cartógrafo, estrategista, criador de engenhos bélicos e inventor italiano. Um dos maiores nomes do Renascimento. Sua obra, de uma grande diversificação, é toda marcada pela genialidade. Sua figura humana aproximou-se como nenhuma outra daquele imaginário Homem Universal, o ideal da época renascentista. Embora genial em diversos campos, foi na pintura que se notabilizou com verdadeiras obras-primas, como o retrato de "Mona Lisa", a "Última Ceia", "Anunciação", e a "Virgem dos Rochedos".
De tempos em tempos, Leonardo dedicava-se à escultura, mas embora fizesse muitos esboços, poucas foram as obras que chegou a completar. "Se não tivesse sido tão volúvel e inconstante, teria feito um grande proveito na erudição e nas letras". A frase é de Giorgio Vasari, pintor e o maior historiador da arte do Renascimento e refere-se a Leonardo da Vinci.
Leonardo da Vinci (1452-1519) nasceu em Anchiano, pequena aldeia toscana perto de Vinci e próxima a Florença, Itália, no dia 15 de abril de 1451. Por volta de 1466, torna-se aprendiz do pintor e escultor florentino Andrea del Verrocchio. Com 25 anos de idade já trabalhava para Lourenço de Medici, o famoso mecenas que governava Florença. Já conhecido passou a trabalhar para outras figuras importantes. Era protegido de Lodovico Sforza, duque de Milão. Entre 1482 e 1499 vive em Milão, onde pinta o afresco "A Última Ceia", para o Mosteiro de Santa Maria dell Grazie.
Até o Renascimento, ninguém pensava em urbanismo. As cidades não passavam de amontoados de casas. No projeto urbanístico que fez para a cidade de Milão baniu muros, traçou canais e um sistema de abastecimento de água e esgotos. As casas eram amplas e ventiladas e haveria praças e jardins. Nesse período estuda perspectiva, óptica, proporções e anatomia. Foi descoberto dissecando cadáveres o que era considerado grave crime. Graças às suas dissecações fez descobertas importantes que registrou em inúmeros desenhos e no Tratado de Anatomia que escreveu.
De volta a Florença, pinta a tela "Mona Lisa" (1503-1506), sua obra mais famosa. Vive em Roma entre 1513 e 1517, onde se envolve em intrigas do Vaticano e decide se juntar à Corte do rei francês Francisco I. Nos estudos científicos, antecipa muitas descobertas modernas, como o helicóptero e o paraquedas. Em Trattato della Pittura, Leonardo defende a supremacia da pintura sobre todas as outras artes, por ser a única indispensável à exploração científica da natureza.
Leonardo da Vinci passou seus últimos dias na França, e ali morreu, no dia 2 de maio de 1519, em Clos Lucé. Foi enterrado na Capela de Saint-Hubert, no Castelo de Amboise.

Obras de Leonardo da Vinci

O Batismo de Cristo, 1475
A Anunciação, 1475
Ginevra de Benci, 1476
Virgem Benois, 1478
A Vígem de Granada, 1480
A Virgem do Cravo, 1480
São Jerônimo no Deserto, 1480
Dama Com Arminho, 1480
A Adoração dos Magos, 1481
Virgem dos Rochedos, 1486
Madona Litta, 1490
Retrato de Um Músico, 1490
Retrato de Mulher de Perfil, 1495
La Belle Ferronniere, 1495
A Última Ceia, 1498
A Virgem, O Menino, Sant'Ana e São João Batista, 1500
Salvator Mundi, 1500
Virgem do Fuso, 1501
Mona Lisa, 1507
Virgem das Rochas, 1508
A Virgem e o Menino com Santa Ana, 1513
São João Batista, 1515
Disponível em: <http://www.e-biografias.net/leonardo_vinci/>. Acesso em: 23 jul. 2014.



TEXTO 9

Autobiografia Helena Kolody

Nasci no dia 12 de outubro de 1912, no núcleo colonial de Cruz Machado, em pleno sertão paranaense. Eram 8 horas da manhã de um dia de sol e geada.
Meus pais eram ucranianos, que se conheceram e casaram no Paraná́. Eu sou a primogênita e a 1a brasileira de minha família.
Miguel Kolody, meu pai, nasceu na parte da Ucrânia chamada Galícia Orienta, em 1881. Tendo perdido o pai na grande epidemia de cólera que assolou a Ucrânia em 1893, Miguel, no ano seguinte, emigrou para o Brasil com a mãe e os irmãos.
Mamãe, cujo nome de solteira era Victoria Szandrowska, também nasceu na Galícia Oriental, em 1892. Veio para o Brasil em 1911.
Vovô radicou-se em Cruz Machado, onde papai trabalhava. "Seu" Miguel conheceu a jovem Victoria e apaixonou-se por ela. Casaram-se em Janeiro de 1912. Estava escrito o primeiro capítulo da minha história.
Cursei a Escola Normal de Curitiba (atual Instituto de Educação do Paraná), diplomando-me em 1931. Sou uma simples professora normalista e tenho muito orgulho disso. Escolhi o Magistério levada pelo impulso irresistível da vocação. A poesia foi um imperativo psicológico. Ao Magistério, dediquei os melhores anos de minha vida. Lecionei com prazer e entusiasmo. Amei meus alunos como se fossem meus irmãos, meus filhos. Muitas de minhas melhores amigas de hoje foram minhas alunas. O Magistério e a poesia são as duas asas do meu ideal.
Texto retirado do Livro "Helena Kolody - Sinfonia da vida; Organização: Tereza Hatue de Rezende. Coleção Antologia poética. D.E.L. Editora/Letraviva, Pólo Editorial do Paraná "A transformação que a gente lê. - 1997.

Disponível em: <
http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/pde/arquivos/2000-6.pdf>. Acesso em: 23 jul. 2014.

 

sábado, 11 de outubro de 2014

ATIVIDADES SOBRE PREDICADO VERBAL: verbo transitivo direto e indireto e verbo intransitivo / PREDICADO NOMINAL: verbo de ligação e predicativo do sujeito

Predicado verbal: Verbo transitivo (direto e indireto) e intransitivo

1.       Leia.

Os meus sonhos

Como era belo esse tempo
De tão doces ilusões,
De tardes belas, amenas,
De noites sempre serenas,
De estrelas vivas e puras;
Quadra de riso e de flores,
Em que eu sonhava venturas,
Em que eu cuidava de amores [...]

( Casimiro de Abreu)

Agora releia as orações do poema e faça o que se pede.

I.                    “[...] eu sonhava venturas”                                               II. “[...] eu cuidava de amores!”

a)       Sublinhe os verbos e separe o sujeito do predicado com uma barra.
b)       Nesses predicados verbais, temos:
(    ) verbo intransitivo                                                              (    ) verbo transitivo

c)        Circule o objeto que completa o sentido de cada um desses verbos.
d)       Que diferença você observa na forma de esses objetos se ligarem ao verbo transitivo?
e)       Copie o objeto que se liga ao verbo transitivo sem preposição.
f)        Copie o objeto que se liga ao verbo transitivo por meio de preposição.

2.               Faça a análise sintática dessas duas orações.

I.                    Oração com verbo transitivo direto

Sujeito simples:
Núcleo do sujeito:
Predicado verbal:
Verbo transitivo direto:
Objeto direto:
Núcleo do objeto direto:


II.                  Oração com verbo transitivo indireto

Sujeito simples:
Núcleo do sujeito:
Predicado verbal:
Verbo transitivo indireto:
Objeto indireto:
Núcleo do objeto indireto:
Conetivo – preposição:



3.       Leia o trecho de uma música “Comida”.
[...]
A gente não quer só comida,
A gente quer comida, diversão e arte.
A gente não quer só comida,
A gente quer saída pra qualquer parte.
[...]
Arnaldo Antunes

a)       Que verbo é empregado repetidas vezes na construção do texto?
b)       Esse verbo classifica-se como:
(    ) verbo transitivo direto.                                            (    ) verbo transitivo indireto.                         
c)        Nesse caso, o objeto é:
(    ) direto.                                                                          (    ) indireto.

d)       Copie o objeto que se repete.

4.       Na sua opinião, que efeito provoca o emprego repetido do verbo e do objeto na letra da música?

5.       Analise os verbos destacados empregados em cada oração, de acordo com a predicação. Use VTD para verbo transitivo direto∕ VTI para verbo transitivo indireto∕ VI para verbo intransitivo.
a)       Todas nós queremos uma vida digna. (          )
b)       A mãe queria muito bem aos filhos. (          )
c)        Os funcionários queriam aumento de salário. (          )
d)       Esta professora ensina muito bem. (          )
e)       Ela já ensinou tudo. (          )
f)        O gato virou todo o lixo. (          )
g)       A canoa virou.(          )
h)       Marcos aspirava todo o pó do carpete.  (          )
i)         Marcos aspirava a um alto cargo. (          )

Predicado Nominal

O MOSQUITO

O mundo é tão esquisito:
Tem mosquito.

Por que, mosquito, por que
Eu... e você?

Você é o inseto
Mais indiscreto
Da Criação
Tocando fino
Seu violino
Na escuridão.
Tudo de mau
Você reúne
Mosquito pau
Que morde e zune.

Você gostaria
De passar o dia
Numa serraria —
Gostaria?

Pois você parece uma serraria!

Vinicius de Moraes

6.       Agora retire do texto verbos de ligação.

7.       Faça a análise sintática dessas duas orações.

I.                     “O mundo é tão esquisito”

Sujeito simples:
Núcleo do sujeito:
Predicado nominal:
Verbo de ligação:
Predicativo do sujeito:
Núcleo do predicativo:


II.                  “Você é o inseto
Mas indiscreto”

Sujeito simples:
Núcleo do sujeito:
Predicado nominal:
Verbo de ligação:
Predicativo do sujeito:
Núcleo do predicativo:


III.                       “... você parece uma serraria!”

Sujeito simples:
Núcleo do sujeito:
Predicado nominal:
Verbo de ligação:
Predicativo do sujeito:
Núcleo do predicativo:





8.       Coloque C nas afirmativas corretas e E nas erradas.
(     ) Em uma oração, sempre que houver verbo de ligação haverá predicativo do sujeito.
(     ) Se o verbo da oração for transitivo direto, o predicado será nominal.
(     ) Nunca haverá predicado nominal, se na oração houver um verbo intransitivo.
(     ) Quando o verbo da oração for intransitivo ou transitivo, o predicado será nominal.

9.       Leia;
No trânsito
Jogar pela janela papéis de propaganda, papéis de balas, de sorvete etc., nem se fala! É coisa de subdesenvolvimento. Seu carro fica limpo e sua cidade fica imunda!
Revistinha Hipopó & Cia.
Indique o que se pede.
a)       “Seu carro fica limpo...”
verbo de ligação –
predicativo do sujeito –

b)       “... sua cidade fica imunda!”
verbo de ligação –
predicativo do sujeito - 
10.   Leia as estrofes do poema.

O cavalinho branco

À tarde, o cavalinho branco
está muito cansado:
mas há um pedacinho do campo
onde é sempre feriado. [...]
Cecília Meireles

Agora passe a oração “Á tarde, o cavalinho branco está muito cansado” para a ordem direta.

11.   Responda.
a)       Qual é o sujeito da oração?
b)       Qual é o predicado?
c)        Qual a palavra do predicado que indica uma característica, uma qualidade do sujeito?
d)       Essa palavra é:
(    ) pronome.                     (    ) substantivo                  (    ) adjetivo                         (    ) verbo.           
e)       A palavra cansado é: _______________________________________________________.

12.   Observe a oração a seguir. “À tarde, o cavalinho branco está muito cansado:”
a)       Qual é o verbo?
b)       Esse verbo indica ação ou apenas liga o predicativo ao sujeito?

13.   Reescreva a oração “[...] o cavalinho branco está muito cansado”, retirando dela o verbo.

a)       O sentido mudou ou permaneceu o mesmo?
b)       No predicativo do sujeito, a importância do significado recai:
(    ) no verbo.                                                     (    ) no predicativo do sujeito – cansado.

14.   Leia agora outra oração com predicado nominal.

O cavalinho parece cansado.

a)       Qual é o predicado nominal?
b)       Qual é o predicativo do sujeito?

15.   Na mesma oração, O cavalinho parece cansado, qual é o verbo do predicado?

a)       Esse verbo indica:
(    ) ação.                                                             (    ) estado.                          (    ) fenômeno da natureza.

b)       Esse verbo apenas liga o predicativo ao sujeito. Portanto, também é um verbo:
(    ) transitivo                                                      (    ) intransitivo                   (    ) de ligação.

16.   Leia.

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem triste:
sou poeta. [...]

Cecília Meireles

Agora sublinhe o predicativo do sujeito em cada oração.

a)       “Não sou alegre [...]”
b)       “Sou poeta.”
c)        O motivo parece outro!
d)       A menina está com febre.
e)       Nós somos três.

17.   Dê a classe gramatical das palavras que você sublinhou no exercício anterior.
18.   Leia a estrofe do poema.
Os músicos
Na casa dos músicos
as paredes são sonoras,
no teto moram acordes,
e nos vãos sustenidos se escondem. [...]

Roseana Murray
Releia a oração “Na casa dos músicos as paredes são sonoras”.
a)        Passe essa oração para a ordem direta.
b)       Separe essa oração em sujeito e predicado, classificando-os.
c)        Qual é o verbo de ligação e o predicativo do sujeito da oração?


Predicado verbal: Verbo transitivo (direto e indireto) e intransitivo

19.   Sublinhe os verbos das orações abaixo e  escreva VI para verbo intransitivo e VT para verbo transitivo.

(    ) Quando você pagará o ingresso do baile?
(    ) Discutiremos esse assunto depois?
(    ) Você assistiu à novela das 9?
(    ) Eu sonho muito toda noite.
(    ) O garoto escreveu um poema para a namorada.

Agora copie os objetos dessas orações.

20.   Coloque, nos parênteses, VI para verbo intransitivo e VT para verbo transitivo.

a)       Neide viveu no Rio de Janeiro. (    )
Neide viveu uma grande aventura.  (    )

b)       Fernanda sonha durante a noite toda. (    )
Fernanda sonha com viagens longas. (    )

c)        A turminha pesca sempre no domingo. (    )

A turminha pescou lambaris no domingo. (    )                                            
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