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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

CORDEL ADOLESCENTE, Ó XENTE!

Sou mocinha nordestina,
meu nome é Doralice,
tenho treze anos de idade,
conto e reconto o que disse,
pois me chamo Doralice,
sou quem vende meu cordel
nas feiras lindas do longe
onde a poesia se esconde
nas sombras do meu chapéu!


Eu falo rimado
não adoçado da palavra
do Nordeste feiticeiro;
no meu peito brasileiro,
aqui vim dizer e digo
que escrevo muito livro
que penduro num cordel,
todo fato acontecido
eu coloco no papel!


Vim pra feira, noutro dia,
armei a minha poesia
num cordel de horizonte.
Quem passasse no defronte
daquilo que eu vendia,
parava e me escutava,
pois sou mocinha falante,
declamava o que escrevia!


 Contei de uma garota
que amava um cangaceiro,
era um tal cabra da peste,
um valentão do Nordeste
que montava a ventania,
trazia susto e coragem
por cada canto que ia!
Virge Maria


O nome da tal mocinha?
não digo não...é um segredo,
escrevo o que não devo,
invento, pois tenho medo
de contar que a tal menina
era...toda fantasia!


Era moça que esconde
a tristeza na alegria,
morava no perto-longe
daquilo que nunca digo,
o seu nome era antigo,
era...talvez...Bertulina...
Quem sabe da tal menina?


Um dia de azul e noite,
pernoite de cavalgada,
na sombra, muito assustada,
Bertulina viu o moço
que, ao longe, galopava.
Ai, gente!
Um luar se balançava
num cordel adolescente!


 O vento corria tanto,
espanto: não alcançava
a ligeireza perfeita
que o galope desenhava!


Era um cabra cangaceiro,
curtido e sertanejo,
tinha olhos de lonjuras,
verduras de olhar miragens,
chapéu de couro, facão
de abrir caminhos, viagens!


Tinha estrelas faiscantes
nos dentes do seu sorriso...
Ai... Me calo... quase falo!...
Ó gente ... que Perca o siso!


Nos cascos do seu cavalo
tinha trovão e faísca,
tinha fogo, tinha brasa,
fósforo que queima e risca
o escuro e ilumina
a paixão em Bertulina!


O moço chegou chegado,
sorriu sua belezura,
saltou fora do cavalo
(vontade ninguém segura),
roubou o beijo da boca
de Bertulina, a donzela.
Depois de assaltar o beijo,
perguntou o nome dela.


— Eu me chamo Bertulina,
moço, estou muito assustada,
sou tão moça, inda menina,
nunca antes fui beijada...
O senhor me assaltou,
não deu tempo pra mais nada...
Eu não sei o que que eu faço,
minha boca está molhada
como o orvalho da flor...
Será que seu beijo, ó moço,
em mim pousou... namorou?
Será que o gesto louco
teve um pouco de amor?


— Não sei se é fato, ou fita,
não sei se é fita, ou fato,
o fato é que você me fita,
me fita mesmo, de fato!
— respondeu o cangaceiro
em brincadeira e risada,
pulou sobre o seu cavalo
e partiu em galopada!


A lua tremeu nos olhos
De Bertulina, em lágrima...


A mocinha ficou louca
de gosto de amor partido
no alto do céu da boca!
Nem sabia que o amor
podia ser cangaceiro,
podia assanhar desejos
roubando o beijo primeiro!


Porque o primeiro beijo
é coisa muito esperada:
tem que ser algo de manso,
remanso, lagoa d´água...


Tem que ter um certo tempo,
coragem não revelada,
um perfume de jasmim,
um não s´esqueça de mim...


Quando numa noite quente
a lua ficou inchada,
o cavalo voltou.
Bertulina espiava
de dentro de uma paixão.

O moço viu Bertulina
e quis roubar outro beijo.
Foi aí que a mocinha
falou assim pro rapaz:


 —Antes de querer meu beijo,
por favor, moço, me liga
se o beijo é verdadeiro,
ou se é ousadia,
assalto de cangaceiro!

[...]


Eu me chamo Doralice
Bertulina do Sertão.
Comigo só tem poesia
se rimar no coração.


Aprendi uma verdade
e verdade não se esquece:
pois é, a gente merece!


(Sylvia Orthof)



 Dialogando com o texto

1.     O cordel, uma narrativa em versos, é um tipo de texto elaborado para ser declamado ou contado.

a)     O texto que você leu se inicia com a apresentação. Quem se apresenta ao leitorouvinte? Qual o seu nome e o que faz?
b)    Qual é a estratégia empregada pela cordelista para atrair a atenção das pessoas para o seu cordel?

c)     Qual é o tema do cordel?


2.     Na 4ª estrofe, a narradora começa a contar a história da garota que amava um cangaceiro.

a)     Que aspectos do cangaceiro são ressaltados nessa estrofe?

b)    Que expressão tipicamente nordestina é usada para qualificar o cangaceiro?

c)     Transcreva a expressão da linguagem oral empregada pela narradora. Que significado ela adquire no contexto?


3.     Ao referir-se à mocinha da história, na 5ª e 6ª estrofes, a narradora não a identifica claramente. Por que ela utiliza essa estratégia?


4.     A primeira vez que Bertulina viu o cangaceiro, algo aconteceu.

a)     Que imagem representa o despertar do amor em Bertulina?

b)    Que verso expressa a emoção incontida desse momento?

c)     Que efeito de sentido é decorrente dessa escolha?


5.     O cangaceiro é caracterizado na 9ª estrofe.

a)     Que versos mostram o seu jeito de ser?

b)    O que esse trecho revela sobre as características do cangaceiro?


6.     Releia a 12ª estrofe e responda.

Foram utilizados verbos para revelar a impetuosidade do cangaceiro. Por que utilizou-se desse recurso?


7.     Na 13ª estrofe, Bertulina, após o beijo, afirma estar assustada.

a)     Qual a preocupação dela em relação ao beijo?

b)    Na fala de Bertulina, o que as reticências podem revelar?


8.     Doralice e Bertulina são a mesma pessoa.

a)     Que pistas, no texto, podem levá-lo a concluir isso?

b)    Com que objetivo a narradora pode ter usado essa estratégia na sua história?



Características do gênero Cordel


1)      Leia o texto informativo “Livros em cordas” e responda corretamente.

a)      O que são cordelistas?
São poetas que publicam seus poemas em folhetos ou brochuras de papel barato e vendem em feiras, nas ruas e até em bancas de jornal.

b)      Que características tem a literatura de cordel?
Os versos de cordel podem ser compostos de improviso por repentistas nas cantorias ou podem ser escritos diretamente no papel.

c)       Por que o nome “literatura de cordel”?
Recebe esse nome porque nas feiras, os textos costumam ser pendurados num varal de corda fina, o cordel.

d)      O que são as cantorias?
São versos compostos por repentistas e cantados de improviso.

e)      Que temas são mais comuns na literatura de cordel?
Geralmente o cordel conta uma história que pode nos ensinar algo, que nos aconselha.






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