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sábado, 5 de agosto de 2017

MORTE E VIDA SEVERINA, DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO - ATIVIDADES DE INTERPRETAÇÃO

Severino é alguém, e Severino não é ninguém. Severino é um só, e Severino são vários. Como isso é possível? Leia o texto para entender.

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.

Mais isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.

Como então dizer quem falo
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.

Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.

Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.

E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).

Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,

a de querer arrancar
alguns roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra,

no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte Severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte Severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.

 (João Cabral de Melo Neto)

Estudo do texto
Compreensão do texto

1.      Quais são os dois elementos, no início do texto, que indicam a humildade e a religiosidade de Severino?
2.      Essas características são exclusivas do protagonista do texto, Severino?
3.      Por que há muitos Severinos, Marias e Zacarias, segundo o texto?
4.      Qual a relação entre o nome “serra da Costela” (“serra magra e ossuda”) e as condições de vida do retirante?
5.      Por que o físico de Severino é tão malproporcionado: cabeça grande, ventre crescido e pernas finas?
6.      Explique os versos:
“e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.”

7.      Qual o significado da expressão “morte Severina”?
8.      Explique o que significa: “a morte severina ataca até gente não nascida.”
9.      Qual é a sina dos Severinos, segundo o texto?
10.   Como o narrador se identifica, no final do texto?

Estrutura do texto

1.      O poema de João Cabral pode ser dividido em três partes:
1ª) Apresentação;
2ª) Relato das condições de vida do nordestino;
      3ª) Conclusão.
ü  Determine o verso onde começa e onde termina cada uma dessas partes.

2.      Responda às seguintes questões:

a)      Quem é o narrador?
b)     Onde se passa a história?
c)      Qual é o tema central do poema?
d)     De que maneira ele conta sua história?
e)      Por que ele conta sua história?

3.      Que artifícios o narrador utiliza, ao longo do poema, para mostrar que ele é um representante de todos os nordestinos?

1.      Você conhece a canção “Asa-branca”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira? Leia os seus versos e compare-os com os de “Morte e vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto.

Asa-branca

Quando olhei a terra ardendo
Igual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação

Que braseiro, que fornalha
Nem um pé de plantação
Por falta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão

Por farta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão

Até mesmo a asa branca
Bateu asas do sertão
Depois eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração

Depois eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração

Hoje longe, muitas léguas
Numa triste solidão
Espero a chuva cair de novo
Pra mim voltar pro meu sertão

Espero a chuva cair de novo
Pra mim voltar pro meu sertão

Quando o verde dos teus olhos
Se espalhar na plantação
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu voltarei, viu
Meu coração

Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu voltarei, viu
Meu coração


(Luiz Gonzaga)

2. Por que Severino é alguém e, ao mesmo tempo, não é ninguém?
3. Para onde, geralmente, os nordestinos migram? Por quê?
4. Você acha que eles encontram o que procuram em seu novo destino? Por quê?
5. Você acha que a solução para os nordestinos que sofrem com a seca é a migração? Você consegue imaginar alguma outra solução?
6. Você acha que o problema da seca é apenas climático? Procure informar-se com seu professor de geografia.
7. Compare as condições de vida de Severino com a de um homem da cidade grande. Quais são as semelhanças e diferenças entre um e outro?


Produção textual

Narre a história de Severino, seguindo as seguintes etapas:
I.                    o caminho percorrido pelo retirante;
II.                 o dia a dia de Severino;
III.              a chegada à cidade grande;
IV.               a vida na cidade grande.





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